Maioria das câmeras em uso não
flagra criminosos
Faz dois meses que o assassinato da executiva Eunice Terazzi,
61, testemunhado pelo neto de quatro anos, movimentou o bairro
Butantã, na zona oeste de São Paulo. Desde então,
suspeitos foram localizados, mas não havia provas contra
eles, apesar de a vizinhança ser cheia de câmeras
de vigilância apontadas para a rua. Na rotina dos investigadores,
o problema não é novidade. Por estarem mal posicionadas,
fornecerem imagens ruins ou, pior, não gravarem nada, a
maior parte das câmeras em prédios residenciais da
cidade não é suficiente para que se impeça
ou elucide os crimes que acontecem diante de suas lentes, dizem
policiais e profissionais de segurança privada. No crime
do Butantã, foram pedidas imagens de câmeras de seis
imóveis vizinhos. Algumas não gravavam nada e outras
não funcionavam nem para simples monitoramento. Só
uma delas fez registro de suposta passagem do criminoso, com péssima
qualidade. "Só dá para ver um vulto. Não
dá para saber se é magro ou gordo, alto ou baixo",
diz o delegado Antonio Tadeu Cunha, do DHPP (Departamento de Homicídios
e Proteção à Pessoa), que investiga o caso.
A Abese (Associação Brasileira das Empresas de Sistemas
Eletrônicos) diz que, após levantamento com associados,
constatou que apenas em 14% das ocorrências pesquisadas
a câmera foi suficiente para mostrar o crime e identificar,
de imediato, seus autores. Isso não quer dizer que todas
as outras são inúteis. A presença do equipamento
pode inibir o crime e mesmo imagens distorcidas podem dar pistas
do tipo físico do criminoso, ressalta a Secretaria de Segurança
Pública de São Paulo. "Mas o ideal é
que a imagem não deixe dúvidas do que aconteceu
e quem estava lá", diz Marcos Menezes, da diretoria
da Abese. O delegado Antonio Cunha faz a ressalva: "É
claro que os profissionais de segurança privada querem
vender o trabalho deles. Mas essa pesquisa [da Abese] faz sentido.
Infelizmente, há muitas falhas de gravação,
especialmente em bairros da periferia", diz Tadeu. Por falta
de estratégia na implantação das câmeras,
escolhe-se frequentemente o equipamento errado para o ambiente.
Exemplo: câmeras fabricadas para identificação
de portaria usadas no jardim. A gravação das cenas,
importante para esclarecer os crimes, é muitas vezes deixada
de lado por economia. Especialistas dizem que é um erro
e que, se possível, as imagens devem ser transmitidas e
gravadas em central fora do condomínio, para evitar problemas
como o do arrastão em um prédio do Morumbi, em julho,
em que assaltantes levaram os computadores com as imagens.
Faça você mesmo?
Contudo, tanto a Polícia Militar quanto profissionais
do setor desaconselham o "faça você mesmo".
Dizem que é preciso contratar um especialista para traçar
uma estratégia para o prédio, de acordo com o orçamento
dos moradores. "Para escolher consultor ou a empresa, veja
referências de trabalhos que já fizeram", diz
José Elias de Godoy, capitão da Polícia Militar,
autor de dois livros sobre segurança. Para a delegada Nair
de Castro Andrade, do 7º DP, na Vila Romana, contratar um
consultor "não é fundamental". "Se
houver orçamento para isso, é melhor, mas há
bons profissionais que instalam as câmeras corretamente",
diz ela, que investiga arrastão que aconteceu na Lapa,
há cerca de dez dias. Nesse arrastão, o 26º
do ano na capital, houve flagrante. Três suspeitos foram
mortos no confronto e seis foram presos. "Se a câmera
gravasse, saberíamos se faltou prender alguém. Mas,
como na maioria dos casos, o equipamento só servia para
monitoramento." Debater a estratégia de segurança
em reunião de condôminos e convencê-los a seguí-la
é fundamental. "Às vezes, o morador do prédio
não quer que o porteiro entreviste, filme seu visitante.
É preciso colaboração", diz a delegada.
(Jornal Folha de S. Paulo / SP)